Nada mais chapliniano do que o protagonista desta bela fábula de Martin Scorcese. Órfão de pai e mãe, e vivendo dentro do relógio de uma movimentada estação de trem, na Paris dos anos 30, Hugo enfrenta constantes perseguições dos representantes do “sistema”. Do guarda da estação mutilado de guerra, com seu cão feroz, ao ranzinza proprietário do quiosque de brinquedos, o mundo adulto vê em Hugo o delinqüente que ele, de fato, deveria ter se tornado diante das condições de pobreza dickseniana em que viveu sua primeira infância. Não sabemos com que idade perdeu a mãe. Mas a convivência com o pai teria sido suficientemente rica para que Hugo desenvolvesse sua espantosa criatividade. Quando o genitor falece e Hugo vai morar com o tio bêbado na estação, já tinha se tornado um expert em consertar coisas quebradas e desenvolvido uma imensa capacidade de resistência. Muito semelhante à de alguns personagens de Chaplin como o Vagabundo, o Garoto ou a florista cega. O psicanalista Stephen Weissman pontua, em sua obra “Chaplin - Uma Vida,” como o criador de Carlitos conseguiu sublimar sua tragédia pessoal através do riso. Isso não acontece só nos filmes. Nos rincões do nosso País e nos ghettos das nossas periferias, também existem crianças carentes, excepcionalmente dotadas, que sobrevivem às adversidades, evitam o papel de vítimas e, ao crescerem, se tornam adultos de sucesso. Muita coisa depende da maneiras com que nós, o “Outro” dessas crianças, as olharmos. Se agirmos como o guarda da estação do filme de Scorcese, e julgarmos que todo menor abandonado é um candidato natural à marginalidade, muito provavelmente eles atenderão a esse nosso “desejo”.
Filme aberto
comentários sobre filmes e sobre a vida
domingo, 4 de março de 2012
sábado, 3 de março de 2012
Tão forte, tão perto
Assim como Hoover não passou nem perto do Oscar por ter ousado revelar a gaysice de um figurão do FBI, o último filme de Stephen Daldry, que tanta comoção causou em Berlim, passou batido pelos conservadores da Academia por ter tocado no famigerado 11/09 sem jogar a culpa na nação muçulmana. Num momento em que muitos apostam que tudo aquilo foi engendrado pelos próprios americanos, como álibi para avançar sobre o petróleo iraquiano, o diretor de Billie Elliot fez um filme intimista, onde um garoto de 13 anos, diante do choque da perda do pai que adorava no atentado, culpa, inconscientemente a si próprio, por não ter atendido às ligações do genitor nesse dia. Presume-se que ele não atende por não querer que o pai saiba que não está na escola, naquele momento. Mas podem haver outros afetos por trás disso. Até mesmo ciúmes da mãe a quem o pai adorado declara seu amor. Essas ligações abalam tanto o jovem Oscar que ele decide esconder a secretária eletrônica, até dele mesmo, como uma dupla negação: da morte do pai e da sua culpa. Esta última, prefere projetar na mãe, a quem acusa de enterrar um caixão vazio. Como escondera as gravações, para ele, a morte não acontecera. Mas esse quadro pré-psicótico se reverte ao longo dos meses. Seu aparelho psíquico desenvolve uma neurose obsessiva compulsiva que acaba por trazê-lo de volta à realidade. Remexendo nas coisas do pai, encontra uma chave num pequeno envelope pardo, com nome Black anotado. A partir daí, elabora uma busca obsessiva de todos que encontra na lista telefônica com esse sobrenome, até que descobre a pessoa que conheceu seu pai e sabe o que aquela chave abre. Elemento simbólico forte e fálico, a chave termina por libertá-lo do seu luto e aproximá-lo da mãe. Nessa busca que, não sei porque incomodou tanto alguns críticos, a ponto de rotularem o personagem como chatinho, Oscar encontra no hóspede mudo da avó, um alemão que suspeita ser o próprio avô, o contraponto ideal à sua neurose. Traumatizado por ter perdido a família na guerra, o personagem de Max Von Sidow, um histérico como o próprio garoto diagnostica, substitui o falecido pai como figura masculina forte e protetora, amenizando a dor do garoto e ajudando-o a entender que a vida continua e que aquele pai, agora internalizado, pode sentir orgulho dele.
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Pontes de Madison
Agradeci, essa noite, ter demorado tanto para assistir a essa obra-prima do Clint Eastwood. Se tivesse visto esse filme há alguns anos, com certeza teria gostado. Mas sem ter passado por um processo psicanalítico, não teria me tocado para o significado da escolha de Francesca. Mesmo vivendo numa sociedade puritana como a daquela cidadezinha perdida no meio do Iowa, interiorzão dos Estados Unidos, a sra Johnson tem sangue italiano. E é esssa ancestralidade européia que lhe permite admitir e ceder ao seu desejo por Robert, o charmoso fotógrafo da National Geographic. Quanta gente precisa de anos de análise para descobrir qual é o seu desejo? Não por acaso, ao avistar a Estatua da Liberdade, do convés do navio que os levou a Nova Iorque, Jung teria dito a Freud: “Mal sabem eles que estamos lhes trazendo a peste!”. A peste chamada Psicanálise ajuda o paciente a fortalecer seu ego, acessando as outras 2 instâncias do aparelho psíquico: o id e o superego. No caso de Francesca, seu id a joga nos braços do amante. Mas seu superego, a instância que representa a noção do certo / errado, a impede de abandonar a família. Apesar de apaixonada ela se mantém suficientemente lúcida para saber que aquele sentimento se transformaria no momento em que pusesse os pés fora daquela casa. Sua fala: “Somos as escolhas que fazemos”, é a fala de uma paciente em final de análise. Quando se torna capaz de tomar contato com seu desejo e decidir se quer segui-lo ou não. Para quem se achava uma pessoa simplória, a personagem de Pontes de Madison revela uma maturidade excepcional. Além de uma amor incondicional pelos filhos.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Billy Elliot
Primeiro longa de Stephen Daldry, Billy Elliot é daqueles filmes que a gente se pergunta por que não tinha assistido antes. Numa cidadezinha do interior da Inglaterra, o adolescente Billy, filho e irmão de dois mineiros rudes e ignorantes e órfão de mãe, descobre que tem mais vontade de dançar ballet do que de treinar box como o pai desejava. Sabendo que a escolha não agradaria o genitor, ele esconde as sapatilhas debaixo do colchão e toma aulas escondido com a professora das meninas. É claro que quando o pai e o irmão descobrem é um Deus nos acuda. Mas isso não consegue inibir o desejo do garoto e ele corre atrás do seu sonho. De onde vem essa força? Possivelmente da certeza de que a mãe falecida o apoiaria. Certeza que aumenta mais ainda quando lê a carta que ela deixou para ele ao morrer, dizendo que ele é um cara legal, que gostou muito de tê-lo conhecido e que estaria sempre ao seu lado e desejava que ele fosse ele mesmo. Um reconhecimento desses, ainda que venha depois de uma perda tão dolorosa, é capaz de fazer milagres pela auto-estima de uma criança. Quantos adultos convivem com uma figura materna 50, 60 anos, sem nunca ter ouvido nada parecido? O fato é que o garoto, que não tinha nada de gay apesar de sua sensibilidade artística, teve sorte com as mulheres da sua vida. Depois dessa mãe maravilhosa, recebeu o apoio e o incentivo de uma professora que percebeu o seu talento e o convenceu a se escrever no Royal Ballet. A atuação dessa mulher me remete ao papel do psicanalista na vida dos seus pacientes. Depois de ajudar o menino a ir atrás do seu desejo, a professora sai de cena. Não fica se vangloriando do pupilo, nem pegando carona no sucesso dele. Não vai nem à sua apresentação. Como fazem os psicanalistas éticos.
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J. Edgar Hoover
A brilhante cinebiografia dirigida por Clint Eastwood do polêmico diretor do FBI percorre quatro décadas da história americana e aponta para características daquele povo, até hoje presentes na sua cultura. A começar pela tendência, não só deles, de culpar os estrangeiros do leste europeu por suas mazelas e deportá-los à primeira suspeita de maus-feitos, que hoje se repete com a paranóia anti-mulçumana. A maior surpresa do filme, é a coragem de Clint, um macho conservador, de mostrar ao mundo que o todo poderoso era gay. Com todos elementos psicanalíticos que contextualizam essa preferência. Um pai demente em casa, e uma figura materna forte como a da Sra. Anne, por si só explicam a opção sexual de Hoover. O filme deixa claro que Edgar nunca rompeu a relação simbiótica que todos bebês têm com suas mães nos primeiros meses de vida. Até a a morte dela, Edgar continuava sendo a mãe. Tanto que a primeira coisa que faz quando esta fecha os olhos, é vestir suas roupas e suas bijuterias. Igualzinho ao psicótico Alan Bates de Hitchcock. Como aquele, Edgar também tinha uma estrutura perversa. Mentiroso, vaidoso, narcisista, assume a autoria de investigações e prisões de que não participou para se engrandecer. Como todo perverso, Edgar também nega o corte do Édipo, se acha acima do bem e do mal, a ponto de dar uma banana para as decisões dos presidentes a quem servia. Seu arquivo particular, destruído após sua morte é o depósito de sua onipotência. Incapaz de amar homens ou mulheres, usa e suga aqueles que dele se aproximam como a secretária Helen e o parceiro Clyde. Como bom perverso, Hoover também está se lixando para o destino do bebê Lindemberg. Está interessado apenas no que a prisão do seu assassino possa reverter em prestigio para ele próprio. Status, prestígio e dinheiro, a razão de ser dos perversos em todas as épocas.
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Os descendentes
Adoro os comentários do psicanalista Sergio Telles, sábado sim sábado não no Estadão. Mas não concordei com sua coluna de hoje em que classifica o mais recente filme de George Clooney como um filme sobre a morte deliberada. Na minha leitura, “Os descendentes” é um filme sobre traição de uma mãe de familia. Claro que tem conteúdos meus nessa interpretação, que não pretendo expor aqui. Mas a cena chave, para mim, do ponto de vista psicanalítico, é a da esposa do amante gritando para a moribunda: "Te perdôo por ter tentado tirar o Brian de mim! Te perdôo por desejado destruir minha família!”. Aqui, a personagem exorciza sua própria culpa por ter odiado tanto aquela mulher que agora está pagando tão caro por seu erro. Como mexe com a gente ver sofrer aquele que nos causou mal e que, inconscientemente, tanto desejamos que pagasse pelo que nos fez. São aos tais culpas inconscientes, resultantes de desejos também inconscientes, provenientes do nosso lado sombra, e armazenados naquele iceberg chamado inconsciente, do qual só conhecemos a pontinha.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Um método perigoso
Assisti, no ano passado, e comentei aqui no blog, o filme “Jornada da Alma”, versão de Roberto Faenza sobre o romance de Carl Gustav Jung, escolhido por Freud para ser seu herdeiro na Sociedade de Psicanálise Internacional, com sua paciente Sabine Spilrein. A mesma história que Cronemberg relata em “Um método perigoso” , agora, com um olhar mais frio e realista. O italiano, deixava, pelo menos nós mulheres, com muita raiva de Jung por ter abandonado sua grande paixão por um casamento morno e de conveniência. Ema, a esposa rica, presenteava o suíço com filhos e iates. Sabine, a russa histérica que ele recebe no Hospital Psiquiátrico de Zurich, lhe entregou o corpo e a alma, cheios de sintomas neuróticos, e de amor para dar. Cobaia na pesquisa do mestre sobre associação induzida, Spielrein se cura de suas neuroses e se torna psicanalista infantil de renome, depois de voltar á Rússia casada e mãe de família. A história de “Um método perigoso” alerta os psicanalistas de hoje sobre os riscos da transferência e da contratransferência. O que provavelmente deve ter sido a gota d’água que selou o afastamento entre Freud e seu mais querido discípulo. Depois de ter feito uma descoberta equiparável ás de Darwin e Copérnico, o mestre de Viena temia que um mau uso da ferramenta psicanalítica pudesse prejudicar seu trabalho de um vida. Zeloso da sua invenção, também não admitia a aproximação que Jung fazia da psicanálise com esoterismo, alquimia, mitos e religiões. Temia que essa visão holística, hoje tão na moda, comprometesse a seriedade da disciplina que inventara. Esse desagrado é muito mais presente no filme do Cronemberg do que no “Jornada“. Assim como o enfoque da relação entre os dois mestres como uma relação entre pai e filho, com toda ambivalência que costuma caracterizá-las. Mas o melhor do filme, e dessa história toda, para quem faz formação em Psicanálise é constatar que é possível uma paciente difícil como Sabine se tornar uma excelente psicanalista.
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